GEORGE ORWELL: quando a ficção se torna realidade

O autor das literaturas obrigatórias do ensino médio e da “insana fazenda de bichos que falam” tem algo a dizer.

Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, é um dos autores mais influentes do século XX, tendo no currículo os famosos romances: A Revolução dos Bichos e 1984.

Mas por que a escola queria tanto que lêssemos esses livros? Sua professora estava certa, ele tem algo muito importante a dizer.

Uma das características mais conhecidas de Orwell é sua intensa oposição ao totalitarismo e hostilidade ao stalinismo. Mas ele não chegou nessa opinião assistindo reels, ele sentiu na pele. Presenciou a pobreza extrema em Londres e Paris nos anos 1930 – resultando no livro Na Pior em Paris e Londres – a Segunda Guerra Mundial, a ascensão do fascismo e nazismo na Europa, a transformação da URSS sob Stalin, o início da Guerra Fria e, entre os anos 1936 e 1939, foi um combatente antifascista na Guerra Civil Espanhola, onde foi baleado no pescoço – comenta em seu livro Homenagem a Catalunha:

Não senti qualquer ressentimento contra ele. […] como era fascista, eu o teria matado se quisesse, mas se ele tivesse sido feito prisioneiro e trazido a minha presença neste momento, eu o teria parabenizado pela boa pontaria.

George Orwell | Créditos: Reprodução

No livro A Revolução dos Bichos, publicado em 1945, os animais maltratados da Fazenda Manor se rebelam contra seu dono humano, na intenção de criar uma sociedade onde todos possam ser iguais e livres. Porém, a rebelião é sabotada e, sob a ditadura dos porcos, a fazenda vira um estado distópico quase idêntico ao que era antes. Segundo Orwell, esse livro reflete os eventos que levaram a Revolução Russa e, posteriormente, a era stalinista da URSS. Aqui ele mostra como toda revolução carrega os germes da sua própria traição. Pois é, o divo foi cirúrgico.

Agora, o livro 1984 é um baque. Acompanha Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade que está encarregado de reescrever registros históricos para o Partido, liderado pelo Grande Irmão. Ele questiona o regime opressor e sonha com uma rebelião, tornando-o culpado de crime-pensamento, com o perigo de ser pego pela Polícia do Pensamento. Nesse mundo distópico, as pessoas são observadas constantemente por teletelas (televisões bidirecionais) e, aqueles que traem o Partido, viram “não-pessoas”, desaparecendo dos registros oficiais e tendo destruído todas as evidências de sua existência.

No romance, a Novilíngua é uma língua controlada e simplificada, feita com o objetivo de impedir que as pessoas pensassem criticamente ou comunicassem conceitos abstratos (como identidade pessoal ou livre-arbítrio). Com isso, Orwell mostra que o pensamento crítico depende de ferramentas linguísticas, e essas ferramentas podem ser confiscadas. A sociedade é estrangulada a ponto de ser incapaz de ter existência autônoma.

E agora cuidado com o spoiler. No final do livro, Winston é descoberto junto com Julia – uma mecânica do Ministério da Verdade com quem desenvolveu um caso durante o livro – e são aprisionados no Ministério do Amor. Winston é torturado com ratos (coincidentemente o maior medo de Orwell) e implora que o método fosse usado em Julia em vez dele.

O’Brien – que inicialmente se apresentou como inimigo do estado e, só quando Winston foi preso, revelou ser um agente infiltrado da Polícia do Pensamento – tortura Winston incansavelmente até que ele admita: 2 + 2 = 5, pois, segundo Orwell, em um de seus ensaios publicados no The Adelphi:

É bem possível que estamos entrando numa era em que dois mais dois serão cinco quando o Líder assim o disser.

Permita-me mostrar que o buraco é mais embaixo. Às vezes você não tem a sensação de que seu celular está escutando seus pensamentos ou te ouvindo o tempo todo? Quantas vezes você falou “nossa, queria muito um colchão novo”, e aparece milhares de anúncios de colchão no Instagram? Quantas vezes você acreditou numa Fake News ou num vídeo de câmera de segurança de animais pulando num pula-pula? Não sei você, mas isso me lembra as teletelas e o Ministério da Verdade.

No ensaio Política e Língua Inglesa ele diz:

Já que você não sabe o que é o Fascismo, como você pode lutar contra o Fascismo? […] A palavra Fascismo agora não tem significado, exceto na medida em que significa ‘algo indesejável’.

Quantas vezes você testemunhou alguém jogando a palavra Fascista na roda sem nem saber o que significa? Quantas vezes você viu alguém falar que apoia esse político sem nem saber o que ele faz? Ou confiar cegamente nele? Esse ensaio foi publicado em 1946, mas também poderia ter sido escrito hoje, 80 anos depois.

Além disso, 1984 não foi tão aclamada quanto se acha. Hoje é um dos maiores livros já escritos, mas foi muito criticado no começo, principalmente após a adaptação para as telas. Telespectadores decepcionados telefonavam para a BBC, uma das reclamações foi: “se é assim que vai ser o futuro, prefiro enfiar minha cabeça no forno a gás” …meia noite eu te conto.

George Orwell, além de ter proporcionado o melhor reality show brasileiro que é o Big Brother Brasil, também é fundamental para a luta contra o totalitarismo e a defesa da verdade. Apesar de diversas controvérsias, há sim uma mensagem importante a ser passada.

George Orwell | Créditos: Reprodução
rafaelarighi@cinemidias.school | Web |  + posts

Rafaela Righi é estudante de Cinema e Mídias Digitais e mora em Sinop/MT. Atua como fotógrafa, produzindo imagens leves, naturais e sem pressa, com foco em capturar momentos simples, mas cheios de significado. Assim como os ensaios, cada um de seus textos no Fantalogia é preparado com cuidado, carinho e atenção aos detalhes.

Referências Bibliográficas

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
ORWELL, George. Homenagem à Catalunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
ORWELL, George. Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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