Este artigo inaugura uma série especial dedicada a A Rainha do Ignoto (1899), romance pioneiro de Emília Freitas, cuja presença tímida na historiografia literária brasileira contrasta radicalmente com sua importância fundacional.
Com esta primeira parte, abrimos um projeto contínuo do FANTALOGIA que culminará em uma publicação especial: um eBook gratuito contendo o texto integral do romance, restaurando e celebrando a obra de uma autora que, apesar de sua relevância estética, histórica e política, foi relegada às margens do cânone.
Escrito ao final do século XIX por uma mulher nordestina, abolicionista, professora e intelectual engajada, A Rainha do Ignoto constitui a primeira obra longa de fantasia e ficção científica social do Brasil. É, portanto, um texto inaugural não apenas por seu caráter imaginativo, que antecede de décadas a consolidação de gêneros especulativos no país, mas também por sua autoria feminina em um ambiente literário fundamentalmente masculino.
Ainda assim, a obra e sua criadora foram submetidas ao que Gayatri Chakravorty Spivak denomina “subalternidade estrutural”, um estado histórico-discursivo em que determinados sujeitos são impedidos de participar plenamente das esferas simbólicas da produção cultural.
O duplo apagamento, o do Fantástico enquanto gênero e o da mulher enquanto autora, produziu um silêncio robusto e persistente. Um silêncio que se faz notar não apenas na crítica especializada, mas também nas mais consagradas histórias da literatura brasileira. Afinal, de Alfredo Bosi a Antonio Candido, de Luciana Stegagno-Picchio a Carlos Nejar, Emília Freitas nunca aparece nas biografias da literatura brasileira.
Como explicar esse apagamento? Como interpretar o silêncio construído em torno de uma mulher que ousou imaginar mundos utópicos, cidades invisíveis, tecnologias narrativas e comunidades femininas autônomas em pleno 1899? Em que medida a subalternização do fantástico brasileiro, somada à marginalização das mulheres escritoras, contribuiu para remover Emília Freitas do horizonte crítico por mais de um século?
Essas são as questões que guiarão este ensaio, o primeiro de uma série que buscará restituir a autora ao lugar que lhe cabe: o de fundadora do imaginário fantástico brasileiro.

Trajetória e projeto intelectual
Para compreender o apagamento de A Rainha do Ignoto, é preciso restituir a figura intelectual de sua autora. Nascida em 1855, no Ceará, Emília Freitas formou-se em um ambiente profundamente marcado pela transição entre monarquia e república, pelas tensões do movimento abolicionista e por debates emergentes sobre cidadania, instrução pública e direitos das mulheres.
Professora, poetisa, republicana fervorosa e engajada no abolicionismo, Emília se alinhava às mulheres intelectualizadas de sua época que procuravam ocupar espaços de enunciação ainda negados às vozes femininas.
Sua atuação literária não se restringiu ao romance, uma vez que ela publicou poemas, participou de círculos culturais e assumiu funções pedagógicas que a conferiram prestígio regional. Entretanto, como frequentemente ocorre com mulheres escritoras do século XIX, tanto no Brasil quanto em outros contextos, sua obra foi lida por meio de classificações limitadoras: sentimental, espiritualista, periférica. A crítica posterior reproduziu essa negligência, ao mesmo tempo em que valorizava o surgimento da prosa urbana ou regionalista masculina como sinônimo de “evolução do romance brasileiro”.
Emília Freitas habitava um espaço discursivo que Spivak reconheceria como profundamente subalternizado: uma mulher que, apesar de letrada e ativa, produzia em um sistema que não reconhecia plenamente sua agência. E quando essa mulher ousou escrever não apenas literatura, mas literatura fantástica, ela desafiou não apenas as convenções de gênero, mas também as convenções literárias dominantes, o que amplificou sua condição de invisibilidade.
O lugar impossível
Ao fim do século XIX, o Brasil vivia um momento de reorganização cultural. O Realismo e o Naturalismo dominavam a produção literária e o discurso crítico. A literatura era vista como instrumento de análise social, científica e urbana. A imaginação metafísica e o maravilhoso eram considerados resquícios de um romantismo ultrapassado, desviantes da evolução natural das letras nacionais rumo ao realismo europeu.
Escrever Fantasia, portanto, já era deslocar-se de um eixo estético hegemônico. E escrever fantasia como mulher significava deslocar-se duas vezes.
A crítica carregava (e ainda carrega) expectativas sobre a autoria feminina: sentimentalidade, domesticidade, intimismo. Mulheres eram autorizadas a escrever crônicas leves, romances edificantes e memórias familiares, mas não utopias sociais, aventuras transmundanas, sociedades secretas femininas e reconfigurações da ordem política.
O gesto literário de Emília Freitas foi, nesse sentido, radical. Ela se apropriou de uma forma literária ainda incipiente, tradicionalmente relegada a um plano menor, e a utilizou para inscrever uma alegoria feminista, espiritual e política que rompia completamente com o horizonte literário de sua época.
O romance apresenta personagens femininas fortes, independentes, intelectualmente ativas, uma vez que cria uma cidade oculta, o Ignoto, governada por mulheres. Dessa forma, subverte expectativas religiosas e mistura misticismo, ciência embrionária e filosofia política. É um projeto literário que combina crítica social e imaginação especulativa de forma pioneira.
No entanto, tal inovação encontrou um cânone que, segundo Spivak, opera por mecanismos de “representação substitutiva”:
A voz dominante fala pelas vozes que exclui, definindo o que merece ser ouvido.
O resultado é que Emília Freitas nunca foi incorporada como fundadora do Fantástico Brasileiro. E o próprio Fantástico, por décadas, nunca foi considerado digno de fundar qualquer coisa.
O apagamento de um gênero
Para entender por que A Rainha do Ignoto foi historicamente negligenciada, é necessário observar o estatuto marginal do Fantástico no Brasil. Enquanto na Europa este gênero era estudado desde o gótico setecentista, no Brasil o Fantástico foi repetidamente tratado como frivolidade literária ou produção juvenil, excluído das grandes narrativas canônicas.
A crítica brasileira, especialmente entre 1930 e 1970, consolidou um discurso que privilegiava o romance urbano, psicológico ou regionalista. A literatura de imaginação foi tratada como anomalia. Poucos autores ousaram defender o fantástico como forma estética legítima.
Assim, quando Emília Freitas publicou, em 1899, uma obra que antecipava debates que só ganhariam corpo no país no século XX, a recepção simplesmente não soube nomeá-la. Sem categorias, sem tradição crítica, sem interesse institucional, a obra caiu em silêncio. Sequer foi contestada, diga-se de passagem, uma vez que foi ignorada.
É significativo que mesmo quando o Fantástico começa a ser estudado no Brasil a partir da segunda metade do século XX, com leituras de Todorov, Rosemary Jackson, e teóricos latino-americanos, A Rainha do Ignoto permaneça fora do debate. Esse silenciamento revela uma tendência crítica a construir genealogias retrospectivas que começam sempre em autores homens e em obras do século XX, apagando a tradição imaginativa feminina do século XIX.
A subalternidade do gênero se cruzou, assim, com a subalternidade da autora: o fantástico era uma voz menor e a mulher era uma autoria menor. O romance de Emília Freitas encontrou, portanto, um duplo veto simbólico.
A fala feminina no sistema literário
O conceito spivakiano de subalternidade é fundamental para compreender o apagamento de Emília Freitas. Em Pode o Subalterno Falar?, Spivak argumenta que a subalternidade não é apenas exclusão material, mas sobretudo a impossibilidade estrutural de fazer-se ouvir dentro dos sistemas de representação dominantes. Assim, mesmo quando a subalterna pode falar, sua fala não é reconhecida como discurso válido.
Emília Freitas escreveu, publicou e circulou por todos os cantos. Entretanto, seu discurso não encontrou eco, não produziu institucionalidade e não se converteu em referência. Segundo Spivak, a subalternidade ocorre quando:
- O sujeito não é autorizado a representar-se dentro do sistema;
- O sistema fala pelo sujeito, tornando-o irreconhecível;
- As estruturas que definem o valor do discurso impedem sua inscrição no cânone.
É precisamente o que ocorre com Freitas. A crítica posterior a tratou como autora regional menor, como curiosidade e como excentricidade literária, negando-a a condição de pioneira de um gênero inteiro. A ausência total de seu nome nos compêndios de Bosi, Candido, Nejar e Stegagno-Picchio demonstra que o sistema literário organizou-se para ignorar sua contribuição. Não por critérios estéticos, mas por estruturas de poder simbólico.
A Rainha do Ignoto, portanto, não é apenas um romance esquecido. É um caso exemplar de silenciamento epistêmico, no qual a voz feminina que cria um mundo fantástico é tratada como ruído, não como discurso.
A ausência eloquente
Um dos indícios mais contundentes do apagamento de Emília Freitas é a sua virtual inexistência nos principais manuais de literatura brasileira. Alfredo Bosi, em sua monumental História concisa da Literatura Brasileira, não menciona a autora. Antonio Candido, ao discutir o romance brasileiro, tampouco se refere à obra.
Luciana Stegagno-Picchio, em sua História da Literatura Brasileira, passa igualmente ao largo de qualquer referência à escritora cearense. E Carlos Nejar, em seu livro de mesmo título, inclui centenas de autores para explicar nossa história, mas ignora Emília Freitas.
Essa omissão sistemática não pode ser interpretada como acaso, ainda mais considerando o impacto, a influência e a relevância de tais autores. Ela é sintoma de um modelo crítico que privilegia determinados tipos de literatura (realista, urbana, regionalista) e determinados tipos de autor (homem, branco, sudestino).
O fato de que a primeira fantasia longa do Brasil foi escrita por uma mulher nordestina não se encaixava nos parâmetros que a crítica buscava consolidar. Assim, a história literária, ao invés de registrar a inovação de Freitas, reforçou o silêncio.
Curiosamente, quando estudiosos recentes buscam mapear o fantástico brasileiro, recorrem às mesmas histórias literárias que ignoraram a autora, perpetuando, assim, o apagamento. É por isso que tantos estudos importantes sobre literatura fantástica no Brasil, sobretudo até os anos 2000, começam por Murilo Rubião ou André Carneiro, como se nada anterior existisse.
O resultado é uma genealogia artificialmente truncada que coloca o nascimento do fantástico no século XX, quando, na realidade, ele já havia sido inaugurado no século XIX por uma mulher.
O espaço simbólico da transgressão
Para compreender a radicalidade estética e política de A Rainha do Ignoto, é necessário situar a obra na tradição do fantástico e da utopia. De acordo com Todorov, o fantástico se estabelece no campo da hesitação entre o natural e o sobrenatural.
Freitas, entretanto, opera em um regime híbrido que se aproxima do fantástico-maravilhoso, no qual o sobrenatural é aceito como parte da lógica narrativa. Mais do que isso, sua obra dialoga com aquilo que Rosemary Jackson chama de Fantástico Transgressor: um discurso literário que dá forma ao reprimido social, expondo fissuras na ordem simbólica dominante.
No centro da narrativa está o Ignoto, uma cidade utópica oculta, governada por mulheres. Esse espaço é a representação de um desejo interdito de emancipação feminina. A cidade funciona como metáfora política, espiritual e estética de um mundo possível que o Brasil de 1899 não podia conceber.
Por meio do Ignoto, Freitas inscreve uma crítica às estruturas patriarcais, ao controle religioso e à desigualdade social. Sua utopia feminina antecipa discussões que só emergiriam no feminismo do século XX, dialogando com textos posteriores como Herland (1915), de Charlotte Perkins Gilman.
Entretanto, Freitas o faz antes, e o faz no Brasil, criando uma das primeiras utopias femininas das Américas. Não por acaso, o Ignoto foi lido como fantasia escapista e não como crítica feminista. A crítica brasileira, moldada por leituras realistas, não reconheceu o potencial político da imaginação.
A ficção científica social brasileira
Além de inaugurar a fantasia brasileira, A Rainha do Ignoto também antecipa debates que se relacionam com a ficção científica social. Embora não utilize tecnologias no sentido tradicional, o romance explora:
- sociedades alternativas;
- modelos políticos experimentais;
- questionamentos sobre gênero e poder;
- dimensões filosóficas da organização social;
- modos de vida não hegemônicos.
Em termos de ficção científica, isso constitui o que Darko Suvin define como novum sociopolítico: um elemento disruptivo que permite ao leitor estranhar sua própria realidade e refletir sobre ela. Assim, o Ignoto funciona como uma tecnologia narrativa capaz de produzir pensamento crítico, razão pela qual o romance pode ser classificado como uma forma embrionária de ficção científica feminista.
Esse aspecto pioneiro torna ainda mais grave o apagamento da obra. Enquanto a ficção científica brasileira buscava genealogias no século XX, ignorava-se que uma mulher havia realizado, em 1899, um experimento singular de imaginação especulativa.
A longa noite do Ignoto
A trajetória editorial de A Rainha do Ignoto é marcada pela rarefação. O romance teve circulação restrita, sem reedições significativas, e sua presença em bibliotecas e acervos era esparsa. Apenas no final do século XX, com edições fac-similares, estudos acadêmicos pontuais e, mais recentemente, com digitalizações realizadas por instituições públicas e grupos independentes, o livro começou a reaparecer.
Esse ressurgimento coincide com o fortalecimento dos estudos feministas, dos estudos sobre o fantástico e da crítica decolonial, que tornaram possível reconhecer Emília Freitas como peça fundamental no mosaico literário brasileiro. Assim, o resgate da obra não é apenas um gesto literário, mas um ato político de reescrever a história da literatura para incluir o que foi silenciado.
Ainda assim, mesmo após esse resgate, Freitas permanece pouco estudada. O desconhecimento do grande público é quase absoluto, e mesmo pesquisadores especializados no fantástico brasileiro frequentemente desconhecem o romance ou apenas o mencionam de forma marginal.
O retorno da voz subalterna
Com este artigo, iniciamos a primeira parte da série especial do FANTALOGIA dedicada a Emília Freitas e A Rainha do Ignoto. Este é apenas o começo de um trabalho mais amplo, que se desdobrará em análises sobre a estrutura narrativa do romance, seus simbolismos, sua dimensão política, sua recepção e seu lugar no panorama das literaturas fantásticas e feministas.
Ao recuperar a obra de Emília Freitas, buscamos realiza o gesto duplo de restaurar uma voz feminina subalternizada e reconhecer a verdadeira origem do fantástico brasileiro. Mais do que isso, buscamos contribuir para reescrever um cânone que durante mais de um século perpetuou o silêncio em torno de uma autora cuja imaginação ousada antecipa discussões modernas sobre gênero, utopia, poder e tecnologia narrativa.
Assim, anunciamos, finalmente, que o FANTALOGIA prepara sua primeira publicação editorial: um eBook gratuito contendo o romance integral A Rainha do Ignoto, acompanhado de comentários críticos inéditos.
Trata-se de um convite a leitores, pesquisadores e estudantes para revisitar um texto que, apesar de silenciado, esteve sempre à frente de seu tempo. Esta é apenas a primeira parte. O Ignoto tem muito mais a revelar.
Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.



