O tentáculo como signo do Horror Weird: crise da nomeação e a indeterminação no imaginário fantástico

Este artigo investiga o tentáculo como forma simbólica central da narrativa Weird, articulando sua recorrência imagética à dificuldade de categorização que caracteriza tanto o gênero quanto seus monstros. A partir do diálogo entre teoria literária, antropologia cultural e filosofia do horror, o texto analisa como o tentáculo opera como signo do indizível, da anomalia e do colapso das categorias cognitivas que sustentam a experiência humana do mundo.

O tentáculo não é apenas um motivo recorrente do horror moderno: ele é um problema epistemológico, ontológico e estético. Sua persistência no imaginário do Weird não se explica por uma tradição autoral isolada, tampouco por uma simples associação com monstros marinhos ou alienígenas. O tentáculo se impõe porque ele encarna visualmente uma crise profunda das categorias culturais, operando como um signo de instabilidade ontológica que antecede, acompanha e ultrapassa a literatura Weird.

Este artigo, profundamente influenciado pelo excelente conteúdo produzido pelo Prof. Dr. Alexander Meireles da Silva, no canal Fantasticursos,parte da tese de que o tentáculo se tornou o símbolo privilegiado do Weird não por acaso, mas porque ambos compartilham a mesma lógica estrutural: a recusa da classificação estável.

O weird não se define positivamente, mas sim pela fratura. Da mesma forma, o tentáculo não se apresenta como um corpo completo, mas como um fragmento ativo, uma parte que denuncia a existência de um todo impossível de ser apreendido.

Para sustentar essa tese, articulamos quatro eixos principais:

  • o Weird como categoria negativa da literatura fantástica;
  • a emergência histórica do tentáculo antes da consolidação lovecraftiana, com destaque para a revista Weird Tales;
  • a leitura antropológica da impureza e da anomalia em Mary Douglas;
  • a convergência entre abjeção (Julia Kristeva), horror filosófico (Noël Carroll) e horror cósmico (H. P. Lovecraft).
H. P. Lovecraft | Créditos: Reprodução

A falha estrutural da taxonomia literária

Diferentemente do fantástico clássico, como definido por Todorov, o Weird não opera no regime da hesitação entre explicações. Ele não oscila entre o natural e o sobrenatural, pois corrompe a própria distinção entre essas categorias. O Weird emerge quando as estruturas explicativas deixam de funcionar não provisoriamente, mas de modo definitivo.

Nesse sentido, a narrativa weird pode ser compreendida como uma categoria negativa, definida não pelo que é, mas pelo que impede que seja. Ele não se deixa estabilizar como gênero porque sua função estética é justamente produzir instabilidade. Trata-se de uma literatura que não promete resolução, integração simbólica ou retorno à ordem.

Essa lógica negativa exige uma iconografia igualmente negativa, com formas que não se completam, corpos que não se fecham, entidades que não se apresentam como totalidades reconhecíveis. O tentáculo surge, então, como a forma ideal dessa estética da incompletude.

No weird, o tentáculo raramente se apresenta como corpo inteiro. Ele emerge de fendas, abismos, sombras, mares, portais. Essa característica é fundamental: o horror não está no que se vê, mas no que o tentáculo indicia. Ele é uma parte que denuncia um todo excessivo, impossível de ser assimilado pelo olhar humano.

Do ponto de vista semiótico, o tentáculo funciona como índice do irrepresentável. Ele aponta para algo que existe, mas que não pode ser plenamente figurado sem que o próprio sistema representacional entre em colapso. Diferentemente do monstro clássico, cuja forma pode ser descrita, enfrentada e derrotada, o tentáculo nunca encerra o sentido.

Essa lógica fragmentária aproxima o tentáculo do que o weird realiza narrativamente: não mostrar demais, não explicar, não fechar. O medo nasce não da revelação, mas da consciência de que qualquer revelação será sempre insuficiente.

A anterioridade simbólica do tentáculo

A associação automática entre tentáculos e Lovecraft obscurece um dado histórico essencial, uma vez que o tentáculo já estava plenamente instalado no imaginário weird antes da consolidação dos Mitos de Cthulhu.

Como apontado pelo professor Alexander, o primeiro número da revista Weird Tales, de março de 1923, já traz em sua capa uma criatura tentacular, revelando que essa forma já operava como signo do estranho radical.

Capa da primeira edição da Weird Tales | Créditos: Weird Tales

Esse dado desloca a interpretação autorcentrada e aponta para algo mais profundo: o tentáculo não é criação individual, mas sintoma cultural. Ele emerge em um momento histórico marcado por crises de classificação (científicas, filosóficas, religiosas e ontológicas) no início do século XX.

A Primeira Guerra Mundial, as novas teorias científicas, o colapso das narrativas progressistas e a percepção de um universo indiferente criaram o terreno ideal para a proliferação de formas que não se deixam ordenar. O tentáculo foi uma dessas formas.

A título de curiosidade, essa primeira edição ainda não contava com narrativas de Lovecraft, que só apareceu pela primeira vez na revista na edição de outubro de 1923 (Volume 2, Número 3).

Os primeiros contos que ele publicou na revista naquele ano inaugural foram:

  • Dagon: publicado em outubro de 1923, foi sua estreia oficial na revista.
  • A Gravura na Casa Maldita: publicado em Janeiro de 1924, embora a edição tenha sido preparada no final de 1923.
  • Os Ratos nas Paredes: publicado em março de 1924.

Na edição de novembro de 1923, Lovecraft também apareceu como ghostwriter para Sonia Greene (sua futura esposa) no conto The Invisible Monster. Ele também apareceu na seção de leitores da revista, com uma carta sobre o conto Um Habitante de Carcosa, de Ambrose Bierce).

O horror da anomalia categorial

Em seu clássico livro Pureza e Perigo, Mary Douglas argumenta que as culturas humanas dependem de sistemas classificatórios para produzir sentido e segurança. Aquilo que escapa às categorias estabelecidas não é apenas estranho, mas também ameaçador.

O perigo não reside na substância, mas na anomalia. E o tentáculo é uma anomalia exemplar, porque perturba múltiplas fronteiras simultaneamente:

  • entre humano e não humano;
  • entre animal e coisa;
  • entre parte e todo;
  • entre interior e exterior.

Essa multiplicidade de transgressões faz do tentáculo um objeto cognitivamente instável. O cérebro humano, como demonstram estudos da neurociência cognitiva, responde de forma defensiva a estímulos que não consegue classificar rapidamente. O medo precede a reflexão.

Assim, o tentáculo ativa respostas primárias de ameaça porque bloqueia o reconhecimento. Ele não permite que o sujeito entenda se isso é um animal, um inimigo ou um corpo. O tentáculo é um erro no sistema.

De igual maneira, Julia Kristeva define a abjeção como aquilo que ameaça os limites do eu e do corpo simbólico. O abjeto não é simplesmente repulsivo, mas também aquilo que desorganiza a identidade. E o tentáculo é profundamente abjeto porque ele viola a lógica da contenção corporal.

Enquanto o corpo humano é pensado como uma unidade fechada, o tentáculo é expansão pura. Ele se estende, invade, penetra, contamina. Não possui rosto, centro ou hierarquia visível. É um corpo sem cabeça e, portanto, sem racionalidade reconhecível.

Essa ausência de centralidade transforma o tentáculo em uma ameaça não apenas física, mas simbólica, que nega a ideia de sujeito, intenção e moralidade. Ele age, mas não se explica.

Para Noël Carroll, por sua vez, o horror se constrói a partir de monstros que violam categorias ontológicas básicas. O tentáculo é talvez a forma mais radical dessa violação porque ele não se apresenta como entidade completa, mas como processo.

O tentáculo não é apenas híbrido, mas também inacabado. Ele sugere uma ontologia em fluxo, incompatível com a necessidade humana de formas fixas. No weird, essa impureza não é resolvida narrativamente. Ela permanece como ferida aberta.

Lovecraft e o signo do colapso

Em seu ensaio mais famoso, Supernatural Horror in Literature, Lovecraft insiste que o verdadeiro horror nasce quando o ser humano percebe sua irrelevância diante do cosmos. Muito mais do do que monstruosos, seus tentáculos são cosmológicos. Eles indicam entidades cuja existência torna irrelevantes as categorias humanas de moralidade, intenção e significado.

O tentáculo lovecraftiano não ataca apenas corpos, mas sistemas de conhecimento. Ele materializa a ideia de que o universo não foi feito para ser compreendido e que a compreensão pode ser, em si, uma forma de loucura.

Dessa forma, o tentáculo se consolidou como símbolo do weird porque ele é a forma visual do impensável. Ele não representa um monstro específico, mas a falência da representação. Ele é o sinal de que algo existe fora do alcance da linguagem, da ciência e da narrativa clássica.

E assim como a própria literatura weird, o tentáculo não oferece respostas. Ele apenas se move e, nesse movimento, desmonta nossas certezas mais básicas. O medo que ele provoca não é infantil nem superficial. É o medo adulto de perceber que nossas categorias são frágeis, contingentes e, talvez, irrelevantes diante da vastidão do real.

matheusprado.maori@gmail.com | Web |  + posts

Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

Referências Bibliográficas

CARROLL, Noël. A filosofia do horror: ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.
DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo: um estudo dos conceitos de poluição e tabu. São Paulo: Perspectiva, 2014.
KRISTEVA, Julia. Powers of horror: an essay on abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
LOVECRAFT, H. P. Supernatural horror in literature. New York: Dover, 1973.
SILVA, Alexander Meireles da. Por que o tentáculo é um símbolo do weird?. Fantasticursos, YouTube, s.d. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KYyP7IALw1s/. Acesso em: 5 jan. 2026.
WEIRD TALES. Vol. 1, n. 1. Chicago: Rural Publishing Corporation, 1923.

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