O vampiro, hoje em dia mais conhecido pelos nomes de Edward, Bella, Damon, Stefan e mais recentemente Michael B. Jordan, é uma criatura sugadora de sangue que é discutida há milhares de anos. Embora tenha se popularizado no início do século XIX, possue uma revelação importante sobre a sociedade.
O surgimento
Segundo o livro Vampiros: a origem do mito europeu, do historiador alemão Thomas M. Bohn, os austríacos começaram a se deparar com relatos de criaturas desconhecidas após anexarem grandes extensões da Sérvia. Em um período de 8 dias, 9 pessoas morreram supostamente após receberem visitas noturnas de um homem chamado Petar Blagojevic, que mordia suas vítimas e chupava seu sangue.
Se você achou que é um caso comum de apenas mais um assassino esquisito, eis o problema: Petar já estava morto e havia sido enterrado há mais de 2 meses. Os relatos foram publicados em um jornal de Viena, em 1725, detalhando a exumação do corpo, que parecia intacto: pele fresca, cabelos e unhas que supostamente haviam crescido desde sua morte e sangue fresco em sua boca. Isso levou a população a loucura, o que fez os moradores cravarem uma estaca de madeira no coração do cadáver e queimarem os restos.
Apenas 7 anos depois, em 1732, ainda na Sérvia, um homem chamado Arnold Paole, afirmava ter sido atormentado por um vampiro em uma outra cidade, mas foi curado quando se lambuzou com o sangue da criatura e comeu terra retirada de seu túmulo. Mas, pouco depois de sua morte, moradores relataram que estavam sendo atormentadas por ele e morreram dias depois. Quando seu túmulo foi aberto, viram sangue escorrendo por sua boca e nariz, seu corpo estava vermelhado e seus cabelos haviam crescido. Uma estaca foi cravada em seu coração e, segundo relatos, ele gritou como se estivesse vivo.
Foi apenas no século XIX que o vampiro ficou amplamente conhecido ao virar tema de literatura. Em 1819, John Polidori publicou O Vampiro, influenciando diversas obras posteriores, como Varney, O Vampiro, Carmilla (a primeira vampira feminina da literatura) e, o mais famoso de todos, Drácula (1897), no qual Bram Stoker eternizou a figura do vampiro aristocrático, charmoso que usa capa preta.

E não pense que Drácula é apenas um personagem fictício, ele foi inspirado em uma figura real: Vlad III, mais conhecido como O Empalador. Considerado um herói nacional na Romênia por conta da defesa de território das invasões otomanas. Hoje é mais conhecido pela forma cruel que tratava seus inimigos, empalando-os e deixando-os expostos como forma de aviso. Ele não era um vampiro, mas era chamado de Vlad Drácula, que significa “filho do dragão”, derivado de seu pai, que se chamava Vlad Dracul, integrante de uma ordem de cavaleiros dedicados à defesa das fronteiras cristãs: a Ordem do Dragão.

A figura vampiresca em outras culturas
Figuras vampirescas existiram em diferentes culturas e períodos históricos até consolidarem na forma como conhecemos hoje.
Na mitologia greco-romana, a Strix era uma ave que se alimentava de carne e sangue humano. Possuía asas semelhantes às de morcegos, boa visão e olfato, olhos amarelos e quatro patas. Após o ataque as vítimas, permanecia adormecida por dias, dando chance aos seus perseguidores de atacá-la.

Nas Filipinas, o Manananggal é descrito como um ser com presas afiadas e enormes asas de morcego. Ele separa a parte superior da inferior do corpo e voa com os intestinos para fora atrás de suas vítimas. Acredita-se que, para matá-lo, basta jogar sal, alho, cinzas ou fogo na parte inferior de seu corpo, impedindo que volte a se unir. Se não conseguir se recompor até o nascer do sol, morre.

Na Malásia, o Penangalan é uma entidade noturna, representada por uma cabeça de mulher flutuante com órgãos pendurados pelo pescoço, frequentemente atacando mulheres grávidas. Não pode ser descrita como um ser morto-vivo, mas sim como uma bruxa que desenvolveu a habilidade de transformação.

Na China, o Jiangshi é um cadáver rígido que salta com os braços esticados para frente. Ele mata suas vítimas absorvendo seu QI, geralmente a noite – já que durante o dia ele descansa em um caixão ou se esconde em locais escuros.

Na Romenia, os Strigoi são criaturas que retornam do túmulo para sugar a vida dos vivos através do sangue, podendo se transformar e ficar invisíveis. É uma das figuras folclóricas que inspiraram a lenda de Drácula. E a lista continua, é enorme, mas conseguiu ver um padrão né?

O vampiro como espelho da sociedade
Filósofos iluministas chegaram a escrever sobre os casos de vampiro da época. Eles não viam como uma ameaça real, mas sim como o ápice da superstição e do atraso intelectual. A declaração mais conhecida é a de Voltaire, que afirmou que havia homens de negócio que sugavam o sangue das pessoas em plena luz do dia. Que não viviam em cemitérios, mas sim em palácios, esses sim eram os vampiros de verdade, que lacre. Para Montesquieu, a persistência de mitos como o vampirismo demonstrava o quanto a sociedade europeia ainda precisava ser educada pelo viés da razão.
Há quem defenda que as histórias dessas figuras se popularizaram tanto na Europa Ocidental no século XIX porque representavam os medos do patriarcado vitoriano. Alguns relatos descreviam vampiros que podiam repousar no seu caixão com o pênis ereto, completamente pelados, ou seja, podiam fazer muito mais do que assassinar mulheres, podiam seduzi-las.
Agora, permita-me fazer uma observação absurdamente importante. Os vampiros, até então, eram mortos-vivos sugadores de sangue que aterrorizavam e drenavam a vida de suas vítimas. Mas agora, são seres sedutores e charmosos, que atraem suas vítimas com seu charme e boa lábia.
No romance Crepúsculo, os vampiros são representados como seres pálidos, ágeis que brilham no sol. Na famosa série Diários de um Vampiro, são seres imortais, persuasivos, que não envelhecem, fazem compulsão mental e queimam no sol. Já em Sinners, possuem uma mente coletiva, não podem entrar em propriedades ao menos que sejam convidados e morrem com estacas no coração, água benta ou alho. Mas apesar desses detalhes, todos eles são interpretados por atores atraentes e, em vez de serem retratados como criaturas grotescas e assustadoras, aparecem como figuras sedutoras que facilmente conquistam o coração do público adolescente.
O vampiro deixou de ser um monstro repugnante e passou a ser bonito, aristocrático e sedutor. São gananciosos, influentes e poderosos, sendo representados, principalmente na literatura e no cinema, como um espelho da própria sociedade. Claro que não vivemos sugando sangue dos outros, mas usando isso de metáfora, assim como o Voltaire, sugamos sim!
Em Sinners, o vampiro principal da trama observa um capuz branco que remete à Ku Klux Klan dentro da casa de uma família simples e percebe que aquele ambiente, já impregnado por discursos intolerantes, é perfeito para a proliferação do ódio. Ele se vitimiza, se apresentando como alguém comum e do bem, que está apenas perdido, é convidado para entrar e toma posse definitiva daquele espaço. Isso não está parecendo um pouco familiar para você?
Deixe-me esclarecer mais um pouquinho. Em vários dos episódios de Diários de um Vampiro, os vampiros da trama cometem assassinatos, massacres e incêndios, mas são constantemente “perdoados” porque são pessoas “boas”, que não tinham a intenção de causar nenhum mal e que apenas precisavam dessas ferramentas para se defender.
Trazendo um pouco dessa lógica para o Brasil, faço questão de mencionar famoso conceito de “Homem Cordial”, desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda. Ele descreve como o brasileiro é amável e hospitaleiro, mas usa dessa amabilidade para esconder a violência. É o famoso “ninguém bate nos meus filhos, exceto eu mesmo”; “minha empregada é parte da minha família, mas eu não vou pagar um salário digno para ela” e assim vai.
O Homem Cordial é duplo: é polido, educado, ama e recebe todo mundo, mas também vai usar de violência para proteger os seus amigos e a sua honra. Isso é uma teoria de quase 100 anos sobre a sociedade brasileira. Mas, se você reler essa descrição, parece que eu acabei de descrever um vampiro de um filme atual. Percebe como não é só um monstro folclórico, e sim o próprio ser humano?
O vampiro nunca foi apenas um monstro folclórico, sempre foi uma representação dos medos, contradições e violências do próprio ser humano. Claro que é assustadora a existência de uma criatura que usa de sua aparência para causar mal às pessoas, abusá-las e matá-las, mas talvez a diferença entre ela e um vampiro seja apenas um canino mais afiado, uma pele pálida e uma capa preta.
Rafaela Righi é estudante de Cinema e Mídias Digitais e mora em Sinop/MT. Atua como fotógrafa, produzindo imagens leves, naturais e sem pressa, com foco em capturar momentos simples, mas cheios de significado. Assim como os ensaios, cada um de seus textos no Fantalogia é preparado com cuidado, carinho e atenção aos detalhes.



